Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

O retrato (texto para a"Fábrica de Histórias")

 

Texto criado para a "Fábrica de Histórias" - http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/15627.html?view=149259#t149259

 

Saí à rua sem vontade e entrei a contragosto no carro incrivelmente gelado. Chovia desalmadamente, na pior das noites de inverno que me recordo. Tinha decidido alugar um filme que me ajudasse a preencher o vazio que sentia, que me aquecesse a alma. Chovia tanto e o vento era tão forte que o carro abanava como se fosse se fosse um carro de brinquedo. Absorto nos pensamentos e com uma visibilidade quase nula não vi um homem que corria na direcção da estrada como se a sua vida, ou a sua morte, dependesse disso. Quando me apercebi já estava praticamente em cima de mim, obrigando-me a uma travagem brusca que me disparou o coração para além de todos os limites cardíacos conhecidos. O homem continuou a correr como se nada fosse mas o carro, a derrapar, apenas parou junto a outro homem, que seguia o primeiro, derrubando-o. Saí louco do carro para saber se estava bem. O homem assustado a e arfar apenas apontava na direcção em que o outro havia fugido. Perguntei se podia ajuda-lo, se precisava de ir ao hospital. Disse-me apenas que o levasse para a casinha do cemitério, onde era guarda. Fomos até lá onde, com a ajuda de uma toalha seca e de uma aguardente bem forte, nos pusemos como novos. Perguntei-lhe o que se havia passado e porque seguia aquele homem. Disse-me que seguia o Zé Maluco que pela 5ª vez´, no último mês, assaltara o cemitério para roubar os retratos de Maria das Dores. Perguntei-lhe se sabia porque o fazia. Respondeu-me com um ar quase surpreendido “Você não é de cá”. Expliquei que tinha acabado de chegar e que ainda me estava a ambientar à minha nova vida. Explicou-me então que Maria da Dores havia sido uma das mais promissoras fadistas da sua geração. Muitos diziam que haveria de ser a maior fadista de sempre. Todos paravam para a ouvir, todos falavam dela, todos choravam com a sua bonita voz. O Zé Maluco era apenas mais um dos seus muitos fans. Acontece que a vida por vezes é madrasta e surpreendeu a jovem Maria das Dores com um cancro na garganta. A voz foi-se, a promessa perdeu-se, a fama foi efémera e quase todos a esqueceram. Todos não, porque o Zé Maluco continuava cego se amores pelas Dores. Como que encantado, por uma voz que ela já não tinha, seguia-a para todo o lado aplaudindo-a efusivamente enquanto todos os outros apenas mostravam pena ou desprezo por uma pessoa, como diziam, “já não cantava nada” mas que insistia em continuar a cantar, vivendo da caridade alheia e de alguns espectáculos patéticos da paróquia, que apenas serviam para acentuar a tristeza de toda a situação. A vida desta pobre mulher era a vida do Zé Maluco. Vivia cada um dos seus concertos como se estivesse a assistir a um concerto da Edith Piaff, chorava, emocionava-se e aplaudia como se ouvisse a voz de uma sereia. A Maria das Dores acabou por morrer só, abandonada e à mercê do esquecimento. No dia do funeral apenas meia dúzia de pessoas vieram e apenas uma chorou. O Zé maluco teve que ser levado para fora do cemitério pois tentava, à força, atirar-se para dentro da cova ainda aberta. Passou apenas um mês e desde então o Zé Maluco tem tentado todos os dias entrar no cemitério e levar os poucos retratos que ainda restam dela. Foi por isso que me viu a correr. Era o Zé Maluco que eu perseguia. Ficamos em silêncio alguns segundos até que disse ao homem que tinha que me ir embora. Despedi-me do guarda com alma angustiada por toda aquela história. O guarda ao despedir-se de mim disse-me que se visse o Zé Maluco que o denunciasse às autoridades. Entrei no carro, triste, tão triste e com mais lágrimas do que aquelas que o céu chorava. Olhei para o meu lado e, no meio da escuridão e da chuva intensa, vi um homem caído de costas. Corri para lá, virei-o e vi-o, de olhos vítreos, abertos e mortos e com um sorriso no rosto. Nas suas mãos aquele retrato cuja cara nunca esquecerei. Fechei-lhe e os olhos e murmurei “talvez possas continuar a aplaudi-la e talvez ela tenha agora um público que a mereça”.

 

Texto criado para a "Fábrica de Histórias" - http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/15627.html?view=149259#t149259

publicado por perdido_e_desorientado às 17:21
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